Conhecido por unir a profundidade do rap à reflexão filosófica, o cantor e compositor Asaph vive um momento de intensa maturidade criativa. Após marcar seu retorno à música com os singles “Céu” e “Imperativo Categórico”, que antecederam a força de seu novo projeto em parceria com a Onimusic, o artista detalha as camadas de seu álbum completo: “Jeremias”, com produção musical assinada por Gustavo Ferraz.
Composto por sete faixas (com direito a uma possível surpresa bônus), o álbum tem como eixo central o relacionamento com o divino, mas sob um prisma de profundo temor e entrega. Para Asaph, o projeto afasta-se de um estágio meramente confessional para mergulhar em uma conversa madura sobre dependência, limite e graça.
A ORIGEM DO TÍTULO E AS CAMADAS DE “JEREMIAS”
A escolha do título nasceu em 2021, durante um período de hiperfoco do artista no livro bíblico do profeta Jeremias. O que mais chamou a atenção de Asaph foi a persistência de uma mensagem proclamada por mais de duas décadas sem uma devolutiva receptiva do público da época.
– A primeira camada foi justamente esse fato de ele falar uma mensagem por duas décadas e ela não ser recebida. A segunda é a insegurança inicial do próprio profeta se era ele o homem certo para aquilo. E a terceira camada é o fato de eu me comportar várias vezes como o povo que não escuta, que segue as próprias vontades. A narrativa do álbum é construída tanto na perspectiva do mensageiro quanto na do receptor – explica o cantor.
Essa dualidade transparece no tom da obra. Questionado sobre o que o público pode esperar do repertório completo, Asaph define a experiência com uma metáfora singular.
– Se fosse para prometer algo a quem vai escutar o álbum pela primeira vez, eu diria para se preparar para uma conversa dolorosa e divertida. Sabe quando você está num enterro e, do nada, os familiares estão dando risada? Não é que eles estão felizes, mas as lembranças do ente que se foi são tão boas que soa necessário ter uma despedida em paz. O álbum caminha por esses dois extremos – compara Asaph.
FILOSOFIA, MÉTODO E A RECEPÇÃO DO PÚBLICO
Estudioso dedicado da Filosofia – área em que mergulhou durante seu recente hiato de dois anos – Asaph esclarece que o álbum não tem pretensão acadêmica, mas se beneficia do rigor metodológico.
– Não tive a pretensão de fazer uma obra filosófica, mas posso dizer que a filosofia me ajudou no processo do álbum. Entendi que não daria para fazer uma tese sobre Jeremias, mas acredito que poderia fazer um bom recorte de um assunto para que ele ficasse claro. Nisso a filosofia se aplicou muito nesse projeto – pondera o artista.
O reflexo dessa curadoria conceitual e artística já pode ser visto na excelente aceitação das primeiras amostras do projeto. Segundo o artista, a resposta calorosa aos singles “Céu” e “Imperativo Categórico” mostra que os ouvintes estão sintonizados com esse novo momento.
VULNERABILIDADE E ENTREGA ARTÍSTICA
A identidade visual da capa, assinada pelo diretor criativo Kleber Júnior, complementa perfeitamente essa atmosfera ao traduzir visualmente a sensação de perder o controle e ser completamente alcançado pelo amor divino.
Para Asaph, “Jeremias” representa um marco de vulnerabilidade e entrega artística, consolidando uma verdade que lhe custou tempo para verbalizar com clareza. Juntamente com o álbum nas plataformas, ele apresenta o clipe da canção “Vaso”, com direção de Felipe Thomaz.
– Por muito tempo falei sobre alguns temas que pareciam muito íntimos, como o fato de eu ter pegado dinheiro com agiota, ter perdido amigos e outras coisas. Mas, no decorrer do tempo, percebi que o que era mais íntimo para mim e a coisa mais difícil de compartilhar era a minha fé. Falar sobre esse Deus que me acolheu e me ama e que a nossa relação pode ir além de uma vida confessional e tê-lo como Amigo e Pai é muito caro pra mim – filosofa o cantor.
SOBRE O ARTISTA
Nascido e criado na Zona Sul de São Paulo, Asaph encontrou no rap a ferramenta perfeita para expressar sua arte e sua fé. Com uma discografia marcante que inclui o álbum “Antes da Terapia” (2021), que lhe rendeu sua primeira indicação ao Grammy Latino na categoria de “Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa”, ele também fez colaborações de peso ao longo de sua trajetória com nomes como Ton Carfi, Gui Neris e BIG THE KIID.
Além de recentes imersões acadêmicas em Filosofia, o artista consolida-se como uma das vozes mais plurais e reflexivas da música cristã contemporânea.
– A verdade que está posta no álbum é que dependo de Deus e só nEle encontro paz. Coisa que para alguém pode parecer óbvia, para mim demorou tempo demais para dizer isso em voz alta. Eu pensava que algumas coisas eram comigo e outras com Ele, mas, na real, tudo é com Ele. Essa separação entre o que é sacro e o que é mundano era uma pauta boba. Enfim, escute Jeremias, meus amigos. Espero que gostem do quadro – finaliza Asaph.


