Já foi o tempo em que “desalmado” era só o nome de uma banda paulista de death metal; agora é também o jeito mais preciso de descrever o novo fenômeno gospel. Solomon Ray, o cantor que domina as paradas cristãs nesta semana, foi criado inteirinho por inteligência artificial. É algoritmo que canta, computador que sente (ou finge bem) e máquina que posa de artista cheio de história.
Biografia cinematográfica, mas sem realidade
No Spotify, a biografia dele parece saída de filme: “cantor de soul do Mississippi que leva o renascimento do soul sulista para os dias atuais”. Dá quase para ouvir o sotaque, ver a igreja pequena, sentir o calor do sul dos Estados Unidos batendo na pele. Quase. Porque nada disso existe de verdade. O Mississippi dele é código. A voz também.
Mesmo assim, o moço virtual lançou um EP natalino chamado A Soulful Christmas, com faixas como Soul to the World e Jingle Bell Soul. Títulos em clima de festa, produção caprichada e melodias que grudam igual propaganda de panetone em novembro.
Sucesso sem respirar
E funciona. Solomon Ray é artista verificado no Spotify, soma mais de 324 mil ouvintes mensais e ainda garantiu o primeiro lugar entre os 100 álbuns cristãos e gospel do iTunes esta semana. Tudo isso sem ter nascido, respirado ou comprado espaço em shows para abertura.
A crítica de Forrest Frank
A ascensão meteórica não passou batida. Forrest Frank, cantor de carne, osso e repertório emocional real, criticou abertamente o fenômeno. Para ele, música cristã é testemunho antes de ser entretenimento. É fé vivida, tropeço, dúvida, resposta, lágrima e alívio. E, convenhamos, algoritmos ainda não foram programados para chorar no chuveiro.
Debate sobre alma e autenticidade
O caso acendeu um debate que mistura religião, tecnologia e um tantinho de pânico existencial. O homem por trás da máquina, Topher, resumiu a ideia em resposta a Frank: “Música é arte, inspirada por cristão, mesmo que não seja cantada por um, e o impacto e a aceitação do público é que importam, não se a voz tem alma ou não.”
O paradoxo de Solomon Ray
Enquanto ninguém chega a um consenso, Solomon Ray segue firme no topo. Sem alma, mas com sucesso. Sem história, mas fazendo história. E, pelo visto, deixando muita gente de carne e osso de cabelo em pé.



