A Céu Aberto, banda de Sapucaia do Sul (RS), lançou o EP “Entre o Céu e Eu”, três faixas de rock cru, sem vontade de soar maior do que são. Não há ali o desespero educado de agradar todo mundo. E isso, curiosamente, funciona.
O EP fisga por contraste. Em tempos de canções compostas por IA, com acesso ilimitado às emoções humanas, a Céu Aberto soa “sou humano, não consigo ser perfeito”.
Formada por Day Werner e Rodrigo Ribeiro, a dupla até cita o quarteto de Liverpool como influência, mas o som chega mais perto do rock de garagem, com espírito punk, produção sem polimento e uma estética que lembra Ana Frango Elétrico e até “Little Bitty Pretty One”, que voltou a circular por aí como se tivesse sido lançada ontem. Nada é gritado. Tudo existe do jeito que dá.
A faixa “Tratamento Intensivo”, que já apareceu em playlist editorial da Apple Music, lida com temas como santificação progressiva, imago Dei e o paradoxo paulino da fraqueza, tudo isso de forma direta, sem metáfora ornamental pendurada como enfeite de Natal ou frase pronta para legenda. As outras duas seguem o mesmo caminho. Alternam rockabilly e introspecção, minimalista de som, de mensagem e de intenção.
Você não termina o EP de quase 10 minutos pensando “isso mudou minha vida”. Termina pensando “ok, isso é real”. E, num cenário musical cada vez mais dominado por prompts, essa sensação de realidade torta vira ouro.
Talvez falte ou sobre profundidade e tensão para você. Mas, como Gabão a Yuri, fica a pergunta para depois do play. Não acha que tem um negocinho vintage aí, não? Uma coisinha twist, uma visão retrô?


