Aperta o play, mas segura a respiração. Foi mais ou menos assim que Marco Telles viveu o lançamento de O Grande Banquete, projeto inspirado em Lucas 14 que quase não chegou ao público por um motivo nada musical. Medo. Mais especificamente, medo de cancelamento.
Em conversa recente no podcast JesusCopy, o cantor foi direto, sem pose de quem já viu de tudo: “Eu morro de medo de ser cancelado. O tempo inteiro”. A frase caiu pesada porque é rara. Pouca gente no meio artístico cristão fala disso com tanta franqueza.
O projeto em questão tem 49 minutos e funciona como um sermão musicado. Nada muito experimental na forma, mas explosivo no conteúdo. Falar sobre quem senta à mesa de Cristo, quem fica de fora e quem deveria estar ali é terreno sensível num Brasil onde tudo vira disputa ideológica em dois cliques. Marco sabia disso.
O receio era simples e quase irônico. Se a direita ouvisse, poderia dizer que ele virou de esquerda. Se a esquerda ouvisse, o rótulo inverso viria rápido. Não importava a intenção. A leitura seria sempre política. O problema é que, segundo o próprio artista, não havia política nenhuma ali. Só Bíblia.
O medo saiu da cabeça e bateu no corpo. Marco relatou crises de ansiedade durante o processo, com dúvidas constantes, noites mal dormidas e a sensação de que qualquer verso poderia virar munição nas redes. Nas ministrações — mensagem que ele pregou cerca de 30 vezes antes de musicar —, o peso é outro: há contexto, olhar e explicação. Já no formato gravado, tudo fica eterno e facilmente recortável.

Claro que o assunto redes sociais apareceu. Twitter, ou X, foi citado como o ambiente onde nuance costuma morrer antes de terminar a frase. Marco e Douglas Gonçalves já passaram por cancelamentos pequenos, desses que não acabam com a carreira, mas deixam marcas suficientes para o medo virar companheiro fixo.
O cantor se define como alguém que trabalha com porosidade. Quer provocar, mas também construir pontes. Mesmo assim, confessou ter medo de ferir pessoas com o que diz. “Eu sou muito sensível”, afirmou, quase como quem se desculpa por sentir demais.
No fim das contas, o pânico não se confirmou. O disco foi lançado, a turnê rodou e ninguém puxou o coro do cancelamento. Talvez porque criticar o projeto exigisse criticar o próprio texto bíblico. E nem todo mundo quer brigar publicamente com Lucas 14 ou com Jesus.
O Grande Banquete está disponível nas plataformas. Ouça sem pressa. Principalmente se causar desconforto. Às vezes, é exatamente aí que a arte começa a funcionar.



