Judeu Marginal e a frase que incendiou o underground cristão
No entanto, não foi apenas a ficha técnica que chamou atenção. Em entrevista ao Long Reels, comandado por Naldo de Sá, o baterista Sergio Verine foi questionado se o diabo era o pai do rock. A resposta foi direta: “Sim!”
Declaração polêmica? Judeu Marginal explica o contexto
A provocação gerou reações intensas, muitas delas apressadas. Mas Verine não deixou margem para interpretações superficiais. “Seria o trovão o pai literal de Tiago e João?”, questiona, em referência ao apelido “filhos do trovão”, dado por Jesus aos dois apóstolos, conhecidos pelo temperamento impetuoso.
A ideia de que “o diabo é o pai do rock” remete a uma das frases mais conhecidas da obra de Raul Seixas, que até hoje provoca debates entre roqueiros religiosos. Para Verine, porém, é um equívoco discutir a expressão fora do contexto da canção. Na interpretação dele, Raul faz uma crítica ao próprio rock, que teria perdido sua vocação contestadora.
“A letra fala da existência de dois diabos: o do exorcista e o que parou na pista”, explica. “Esse ‘parar na pista’ é se acomodar, perder a capacidade de questionar. É uma crítica ao próprio rock, que já deixava de ser contestador na época do Raul.”
Teologia incendiária, produção de peso e um trio ousado
Voltando ao lançamento da banda, que também traz a palavra “diabo” no título, além da produção técnica de excelência, o grupo contou com a revisão teológica do pastor Carlos Bregantim, conhecido por seu olhar crítico e humanizado sobre o Evangelho. A participação reforça o cuidado do trio formado por Letícia Moraes (voz), Sergio Verine (bateria) e EJ (guitarra) com a construção da mensagem da canção.
“Nossa música é uma crítica a quem mata em nome de Deus”, resume a vocalista Letícia. O alvo são pessoas e grupos que recorrem ao nome de Deus para justificar violência, intolerância e opressão — uma prática que atravessa a história e se repete em diferentes contextos religiosos e políticos.
O desconforto como ferramenta espiritual
O som cria uma atmosfera que remete ao melhor do rock alternativo dos anos 90, mas sem soar nostálgico. Também reflete a postura da banda, que evita associar seu trabalho ao rótulo do mercado gospel. Não é uma música pensada para os cultos, e sim para a rua, para o confronto de ideias e para o mundo real.
Judeu Marginal: um alerta em forma de distorção
A nova faixa levanta uma pergunta incômoda: que imagem de Deus tem sido construída no Brasil evangélico contemporâneo? Em um contexto em que a religião também ocupa espaço nas disputas midiáticas, culturais e eleitorais, a Judeu Marginal propõe uma leitura crítica da relação entre fé, poder e violência.
Em vez de oferecer respostas prontas, o trio prefere expor contradições. “Deus sem Jesus é o Diabo” parte da provocação para questionar interpretações que, na visão da banda, distanciam a imagem de Deus dos ensinamentos de Jesus. “A intenção não é chocar por si só, mas provocar reflexão”, garante o guitarrista EJ.


