A imagem que circula nas redes sociais, de templos com telão, banda profissional e milhares de fiéis, não representa a maioria das igrejas evangélicas no Brasil. É o que defende a professora, palestrante e autora Mariane Godoi, que reuniu um conjunto de dados de pesquisas acadêmicas, institutos e órgãos oficiais para argumentar que o Brasil evangélico real é outro: pequeno, popular, leigo e sustentado, em grande parte, por mulheres e por pessoas idosas.
Igrejas pequenas, lideranças sem formação
Segundo Godoi, a média de frequentadores em um culto dominical no Brasil gira em torno de 70 pessoas. É uma realidade de dezenas, não de milhares ou centenas. Estruturas com múltiplas equipes, som profissional e várias lideranças formadas seriam exceção, não regra.
A professora também chama atenção para o déficit de formação teológica e ministerial entre os líderes. Em pesquisa própria, feita com mais de 60 líderes de louvor, apenas 14% relatou algum tipo de formação estruturada. Para Godoi, isso não é uma crítica aos líderes, descritos por ela como servos de Deus dedicados e piedosos, mas um retrato de uma realidade de igrejas que funcionam, muitas vezes, em salões alugados e com poucos recursos, na periferia das cidades.
Ainda de acordo com a autora, o modelo de culto hoje predominante (blocos de música intercalados por uma pregação de tom motivacional) tem cerca de 40 anos. É uma fração recente diante dos mais de dois mil anos de história do cristianismo.
Crescimento puxado por pentecostais, mas em ritmo mais lento
Godoi atribui o crescimento evangélico brasileiro principalmente aos pentecostais e neopentecostais. Já as igrejas históricas tradicionais teriam mais dificuldade de dialogar com a realidade popular brasileira, o que explicaria seu crescimento mais tímido.
Os números do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dão suporte a essa tese: a proporção de evangélicos na população saltou de 21,6%, em 2010, para 26,9%, em 2022, um avanço de 5,3 pontos percentuais que fez desse o grupo religioso que mais cresceu no período, segundo o instituto. Em números absolutos, o total de evangélicos passou de 35 milhões para 47,4 milhões de pessoas. Cabe uma ressalva metodológica: o Censo considera apenas a população de 10 anos ou mais, um recorte etário diferente do “31% a partir de 16 anos” citado por Godoi, que parece vir de uma reclassificação feita por outra fonte, e não diretamente do IBGE.
Apesar do avanço, pesquisadores apontam desaceleração. O crescimento entre 2010 e 2022 foi menor do que o registrado entre 2000 e 2010, e a taxa de expansão anual do período mais recente ficaria abaixo da média histórica desde 1980.
Saúde mental e insegurança financeira no púlpito
A segunda parte do levantamento de Godoi trata de um tema pouco discutido publicamente: o sofrimento psíquico de pastores e líderes religiosos. Segundo a autora, 45% dos pastores evangélicos no Brasil apresentariam sinais de depressão. Em pesquisas internacionais citadas por ela, o número chegaria a 56% para sintomas depressivos e 65% para sentimentos de solidão entre líderes religiosos.
Para Godoi, a maior fonte de estresse desses líderes não seria de natureza teológica, e sim financeira. Grande parte seria bivocacionada, precisando conciliar o trabalho pastoral com um emprego formal, sem folga na segunda-feira, dia seguinte ao culto.
Maioria feminina e um dado que choca
As mulheres são maioria nas igrejas evangélicas brasileiras: 55% da membresia em geral, chegando a mais de 60% em denominações neopentecostais, segundo a autora. Uma reportagem da CartaCapital, com base em dados do Datafolha, mostrou que mulheres negras são maioria entre os evangélicos no país, reforçando esse recorte de gênero e raça.
O ponto mais delicado do levantamento de Godoi relaciona esse protagonismo feminino a dados de violência doméstica. Segundo ela, 40% dos casos de violência doméstica no Brasil ocorrem no período da noite, e um em cada cinco casos de feminicídio aconteceria aos domingos. A autora relaciona esse dado ao fato de muitas mulheres voltarem da igreja, à noite de domingo, para dentro de casa, onde a violência ocorre. Uma reportagem do Jornal da USP, do campus de Ribeirão Preto, reforça a lógica por trás do argumento ao apontar que delegacias de defesa da mulher fecham justamente nos horários de maior pico de violência de gênero, evidenciando uma lacuna de proteção institucional nesses períodos. Dado o peso do argumento, vale checar a fonte primária exata desse tipo de estatística antes de replicá-la.
Gospel toca o Brasil, mas não converte sozinho
Outro eixo do levantamento é o descompasso entre consumo cultural e prática religiosa. De acordo com pesquisa citada por Godoi e divulgada pelo portal Pleno.News, o gospel é o segundo gênero musical mais ouvido no Brasil, atrás apenas do sertanejo. Ainda assim, apenas 5% dos brasileiros veriam o gospel como parte da identidade cultural do país. Para a autora, isso desmonta a ideia de que o sucesso de artistas gospel na mídia tradicional seria sinal de conversão em massa. O desafio, segundo ela, está no discipulado, não na audiência.
Igreja como rede de proteção social
Godoi defende que o crescimento evangélico está diretamente ligado à ausência do Estado em comunidades vulneráveis. Em 2019, o Brasil teria aberto uma média de 17 templos por dia, tendência que, segundo ela, segue em alta. A tese da autora é que, quanto maior a sensação de insegurança social, maior a adesão a valores conservadores e tradicionalistas. É nesse vácuo que igrejas pentecostais avançam em periferias, atuando como escolas, abrigos e redes de apoio.
O argumento tem respaldo em estudos sociológicos sobre o campo religioso brasileiro, como a tese de doutorado da pesquisadora Magali Cunha (USP), voltada à mídia evangélica, e o trabalho do missiólogo Rubens Muzio sobre o tamanho médio das igrejas brasileiras. Ambos são citados por Godoi como referência para seus dados sobre o perfil e o formato das comunidades evangélicas no país.
O recado final
Para Mariane Godoi, o objetivo de reunir esses dados não é gerar curiosidades para redes sociais, mas provocar reflexão. A igreja evangélica brasileira majoritária não é a das igrejas grandes e tecnológicas que aparecem nas redes, e sim pequenas comunidades de bairro e periferia, lideradas majoritariamente por mulheres e por pessoas em situação de vulnerabilidade. Comunidades que precisam de acolhimento, mas também de discipulado. “Não estou defendendo assistencialismo”, afirma a autora. “Isso é simplesmente o evangelho.”
Fontes citadas por Mariane Godoi: Felipe Nunes, “Brasil no Espelho” (Globo Livros, 2025); tese de doutorado de Magali Cunha (USP, 2004); Rubens Muzio, Práxis Missional; Instituto Paracleto; Sempre Família; Pleno.News; IBGE (Censo Demográfico 2022); Agência Brasil; CartaCapital/Datafolha; Jornal da USP; Centro da Metrópole (USP); Cairn.info; Repositório Metodista; Comunhão; Periódicos São Lucas; RTM Brasil.


